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De novo, Vale?

Quando vidas valem menos do que discursos demagógicos

Arte: Pátria Paulista

Dezenas de mortos, centenas de desaparecidos num mar de lama que, por si só, deveria unir todos os cidadãos deste país num gesto uníssono de repúdio à falta de governança, à irresponsabilidade à falta de supervisão efetiva do governo no que toca a questões ambientais. Mas não, nada disso. A ocasião se mostra, mais uma vez, propícia para que energúmenos “de Direita” e descerebrados “de Esquerda” voltem a se atacar e se xingar nas mídias sociais. É como se a morte horrível de dezenas de pessoas pouco ou nada tocasse a essa gente, os radicais das duas extremidades ideológicas nas redes. Tudo que importa é mais uma chance para desqualificar o “outro lado”, e mostrar como “eles” são isso e aquilo de ruim. Infantil, para dizer o mínimo. Grosseiro e insensível, para quem tem mais de dois neurônios funcionando.

Nem bem aquele mar de lama soterrara uma enorme área em Brumadinho, e aqui e ali nas mídias sociais começaram a pipocar acusações de lado a lado. Afinal, “a barreira tinha sido autorizada a ter sua capacidade em muito aumentada durante um governo petista em Minas”, afirmam alguns que sonham em vestir meninos de azul e meninas de rosa. “Ah, mas a autorização para se construir tal barreira veio, inicialmente, de um governo de direita no estado”, rebatem os mais avermelhados.

E daí a coisa toda descamba para xingamentos, acusações vazias, achômetros infantilóides e fake news ridículas, mas ainda assim, críveis para os de mente mais fraca. E nesse meio tempo, gente agoniza e morre num lamaçal, cuja origem tem apenas quatro letras: V-A-L-E.

A empresa, uma das gigantes do mundo na área de mineração, simplesmente fez (e faz) o que bem entende em Minas Gerais. Cidades inteiras do estado dependem dos negócios desta empresa para sobreviverem, e isso é poder. O poder de alterar a legislação, de convencer, de maneira aparentemente mágica, até o mais ranheta engenheiro ou técnico estatal que as iniciativas da empresa são “sempre seguras”, mesmo após o fiasco humano, econômico e até midiático que foi o desastre de Mariana.

O problema em Minas (e não só lá, se querem saber) não passa por deixar o governo “mais de Direita” ou “mais de Esquerda”, mas sim a aumentar sua eficiência em fiscalizar, multar e punir empresas – todas elas, mesmo as gigantes, poderosas e influentes como a Vale.

Faltam fiscais, uma legislação efetivamente dura com empresas de mineração, uma maior responsabilização de diretorias e executivos por decisões mesquinhas e perigosas – isso é o que falta para que nunca mais tenhamos outro desastre como o de Brumadinho.

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Livros ameaçados de morte

Mercado editorial paulista afunda em crise graças ao Brasil

EBC

São Paulo está parando de ler. As vendas de livros em território paulista caíram 18% em volume e 19% (valor) na comparação entre o primeiro bimestre de 2018 e de 2019. No período, a queda de venda dos livros escolares foi pior: diminuição de 43% em volume e 38% em valor. Os dados são do 1º Painel das Vendas de Livros deste ano, feito pela consultora Nielsen Bookscan e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL).

Conforme o painel, em 2018, o crescimento do volume de vendas foi de 1,32% (44,3 milhões de exemplares) e no valor 4,59% (faturamento total de R$ 1,86 bilhão). O ano passado foi marcado pelo pedido de recuperação judicial de duas grandes redes varejistas (Saraiva e Melhoramentos), além do encerramento de atividades, em São Paulo, da FNAC, uma cadeia francesa de megastores especializada na venda de livros, CDs, jogos eletrônicos e aparelhos eletrônicos.

O presidente da Câmara de Livros, Vitor Tavares, disse que o setor livreiro “vive crises”, no plural. Segundo ele, a recessão e o baixo crescimento econômico visto em 2017 e 2018 afetaram o comportamento dos consumidores. “Os orçamentos pessoal e familiar diminuíram. As pessoas vão cortando consumo. O livro passa a ser considerado algo que pode esperar”.

Além da economia, Tavares assinala as mudanças no negócio, impactado com a venda na internet e pelos custos de manutenção de grandes lojas em shoppings. Ele também considera que a venda de livros em São Paulo é limitada pela falta do hábito de leitura, mas também há a questão da instabilidade econômica a que São Paulo padece, por culpa das políticas econômicas irresponsáveis que vêm de Brasília.

Hábito de leitura encolhe

A visão do presidente da Câmara do Livro é compartilhada por especialistas e já foi verificada em mais de uma edição da pesquisa Retratos da Leitura . De acordo com Zoara Falia, coordenadora do levantamento, 50% dos paulistas admitiram não ter lido um livro inteiro por vontade própria nos três meses antes da pesquisa (edição de 2016). Trinta por cento dos entrevistados declararam nunca ter comprado um livro em qualquer momento da vida.

Conforme Vitor Tavares, o impedimento da compra de livros não está no preço dos títulos. “A desculpa do preço é inerente à falta de hábito de leitura”. Em meados de 2018, a Nielsen Bookscan calculava que o preço médio do livro era de R$ 34.

De acordo com última edição da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE (2008), o gasto com livros é baixo em todas as faixas de renda familiar. Entre aqueles com rendimento de até dois salários mínimos, a despesa com “livros didáticos e revistas técnicas” foi de 0,1%, o mesmo percentual de gastos com “periódicos, livros e revistas não didáticas”.

No outro extremo, quem recebia mais de 25 salários mínimos, o dispêndio com livros didáticos e revistas técnicas também era de 0,1%. Enquanto que o gasto com periódicos, livros e revistas não didáticas chegou a 0,4%. “O preço é empecilho se tem valor absurdo. E se não tem dinheiro, a pessoa pode pegar o livro na biblioteca”, argumenta Vitor Tavares.

“As pessoas percebem a biblioteca para estudantes e para pesquisa, não um espaço cultural aberto à toda a população. Não percebem que ali encontram literatura que possa interessar”, analisa a especialista. Ela lamenta: “Às vezes, é único equipamento cultural que o município tem e deveria ser explorado, não só para acesso aos livros mas para eventos culturais”. Dado da pesquisa Retratos da Leitura indicam que menos de um terço da população (com mais de cinco anos de idade) vai às bibliotecas.

Obrigação de ler pressiona

A coordenadora da pesquisa ainda avalia que há razões dentro de casa e em sala de aula para o livro ser pouco consumido. “A escola não desperta o gosto pela leitura. A leitura acontece por forma obrigatória, isso não consegue atrair”, ressalta ao também descrever que nas famílias também “está faltando mediação, alguém que faça o contato do livro com as crianças e os jovens”.

“O hábito de leitura vem de casa ou vem da escola”, concorda Mansur Bassit, ex-secretário de Economia da Cultura, atualmente no Projeto Livro Conectado. Ele lembra que, em tempos de smartphone e internet, a atenção das pessoas está sempre em disputa. No caso dos estudantes, é preciso reforçar a preparação de docentes para essa realidade.

“É falha a formação dos nossos professores e isso reflete no mercado que não cresce. Capacitação dos professores é um dos grandes segredos para a gente melhorar a leitura, mas isso leva décadas”, pondera. Em geral, os docentes do ensino fundamental pertencem às redes municipais e os professores do ensino médio são de escolas estaduais.

A secretária executiva do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), Renata Costa, assinala que “o mercado editorial está mais aberto e voltado para as políticas públicas”. Segundo ela, os programas de aquisição de livros didáticos e paradidáticos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) “democratizam o acesso livro” e “aquecem o mercado”.

Este ano, o FNDE deve gastar mais de R$ 1,1 bilhão com a aquisição de 126 mil livros para atendimento aos professores da educação infantil e a todos os estudantes e professores dos anos iniciais do ensino fundamental, e para a reposição dos livros consumíveis para os estudantes e professores dos anos finais do ensino fundamental e ensino médio.

Outro programa governamental que viabiliza o aumento do consumo de livros é o programa Vale-Cultura, que entre 2013 e 2018, resultou no gasto de meio bilhão de reais em cultura entre trabalhadores empregados com carteira assinada. De acordo com base de dados do Ministério da Cidadania, 65% do valor (R$ 336 mil) foram gastos com aquisição de livros, jornais e revistas.

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A ameaça da pesca fantasma

ONG alerta que 10% do lixo plástico nos oceanos vêm desta prática de pesca

Reprodução/Pixabay

Quando um filé de peixe chega na mesa de um cliente no restaurante ou quando alguém compra uma lata de atum no mercado, não é difícil de imaginar que antes daquele momento toda uma cadeia de produção entrou em cena, desde o pescador artesanal ou um navio pesqueiro, até o preparo final para o consumo. O que poucos sabem é que existem muitos equipamentos de pesca abandonados no oceano ameaçando várias espécies da vida marinha. A isso se dá o nome de pesca fantasma.

“Dez por cento do lixo plástico marinho que entra nos oceanos todos os anos é equipamento de pesca perdido ou abandonado nos mares. E esses materiais, por terem sido desenhados para fazer captura, eles têm uma capacidade de capturar e gerar um sofrimento nos animais, com impacto em conservação”, explica o gerente de vida silvestre da organização não governamental (ONG) Proteção Animal Mundial, João Almeida.

As pessoas não imaginam o grau de degradação que uma lata de pescado acarreta

A ONG lançou este mês a segunda edição do relatório Fantasma sob as Ondas. O estudo mostra que a cada ano 800 mil toneladas de equipamentos ou fragmentos de equipamentos de pesca, chamados de petrechos, são perdidos ou descartados nos oceanos de todo o planeta. Essa quantidade representa 10% de todo o plástico que entra no oceano. No Brasil, estima-se que 580 quilos desse tipo de material seja perdido ou descartado no mar todos os dias.

Dentre os petrechos mais comuns estão as redes de arrasto, linhas, anzóis, linhéis, potes e gaiolas. Esses petrechos podem matar de várias formas. Os animais podem ficar feridos ou mutilados na tentativa de escaparem, presos e vulneráveis a predadores ou não conseguem se alimentar e morrem de fome.

O estudo avalia a atuação das grandes empresas pescado e as providências que tomam – ou não tomam – para evitar a morte desnecessária de peixes. A versão internacional do relatório elencou 25 empresas de pescado em cinco níveis, sendo o nível 1 representando a aplicação das melhores práticas e o nível 5 com empresas não engajadas com a solução do problema.

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Sobre o Autor

Flávio Rebelo

Flávio Rebelo

Flávio Rebelo é paulista, nascido em Santos e morador da cidade de São Paulo. Microempresário na área de educação e cultura, atua também como ativista social por meio da ONG São Paulo Livre

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