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Um memorial para ver e sentir o Holocausto

Uma exposição permanente sobre o Holocausto passa a fazer parte do Memorial de Imigração Judaico, na capital

Rovena Rosa/Agência Brasil

Tem passeios que são bem alegres e bacanas, que deixam a gente mais leve, mas que, ao mesmo tempo, se vão rapidamente de nossa memória. E há alguns passeios que deixam marcas profundas na gente, que nos fazem pensar, sentir e, principalmente, refletir sobre nossa condição de ser humano. Hoje gostaria de propor em minha coluna um passeio assim, mais sério e denso, mas nem por isso, menos interessante para todo mundo.

Uma exposição permanente sobre o Holocausto, inaugurada nesta quinta-feira na capital, é um desses passeios mais intensos. A exposição nos leva de volta ao passado, a um período trágico da história mundial. Logo na entrada da exposição lê-se ‘Arbeit Macht Frei’ (‘O trabalho liberta’ , em alemão), a famosa e infame frase que havia no portão de entrada do Campo de Concentração de Auschwitz , seguida da foto de Anne Frank, a garota alemã cujo diário se transformou em uma das mais conhecidas obras do período do Holocausto. Seguindo pela exposição, pode-se ver uma réplica em tamanho natural de um barracão de prisioneiros judeus, objetos e peças de vestuários, pôsteres da propaganda nazista.

Considerado um dos episódios mais cruéis da história da humanidade, o Holocausto vitimou, durante a Segunda Guerra Mundial, dentre outras vítimas, mais de 6 milhões de judeus – destes, perto de 1,5 milhão de crianças. Por mais terrível que tenha sido este morticínio, é um evento ainda pouco conhecido entre muitos paulistas, especialmente os mais jovens. Para preencher essa lacuna, o Memorial da Imigração Judaica inaugurou a exposição permanente sobre o tema e passa a se chamar, a partir desta data, Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto.

“Essa preservação da memória é fundamental e é feita no mundo inteiro, há museus do holocausto nas maiores capitais do mundo, então uma capital como São Paulo não podia deixar de ter seu Memorial do Holocausto”, diz o professor de história judaica Reuven Faingold, diretor de projetos educacionais do Memorial.

“Uma exposição emocionalmente intensa, que nos faz pensar em nossa condição humana”

Desde sua concepção até sua inauguração, a mostra consumiu seis meses de preparação, com um eixo central: além de ser uma exibição de objetos, fotos ou vídeos históricos, é um local que produz um efeito sensorial no visitante. “Tentamos fazer um museu vivo, no sentido de que o visitante sinta na pele um pouquinho do que aqueles prisioneiros sentiram”, diz o curador do Memorial.

“O visitante vai encontrar uma vitrine subterrânea com o prisioneiro e sua ração de comida, que era um pouco de batata; ele vai ver a construção de um comércio judaico em Berlim e efeitos sonoros como a quebra dos vidros dessas lojas durante a Noite dos Cristais, no dia 9 novembro de 1938. Vai ver reproduções de obras de arte que foram confiscadas de lares judaicos. Há ainda o famoso pijama listrado, tanto de adulto quanto de criança, usados pelos presos. O ponto alto é a barraca de prisioneiros, onde as pessoas poderão sentir o cheiro da palha que fazia às vezes de colchão, e a própria tigela que era o travesseiro do prisioneiro”, comenta o diretor.

A exposição do Memorial também proporciona contato com objetos autênticos pertencentes às vítimas do Holocausto, doados por familiares que hoje residem em São Paulo. Outra seção de forte impacto emocional é a que exibe desenhos feitos por crianças prisioneiras dos campos de concentração, que retratam cenas observadas durante a terrível estadia naqueles campos de morte.

A exposição ainda exibe vídeos em uma sala especial que narram episódios da época, como a ‘Noite dos Cristais’, quando nazistas lançaram uma onda de ataques a judeus em várias regiões da Alemanha e da Áustria em 1938; ou filmes de propaganda feitos para exaltar o governo nazista de Adolf Hitler.

Radicado em São Paulo há 27 anos, Faingold, de 60 anos, é um judeu descendente de evadidos da Europa no período do Nazismo – seu avô materno se refugiou na Argentina, onde ele nasceu. Para o professor, a preservação dos objetos é essencial para a história. “No futuro não haverá mais sobreviventes, porque esses que chegaram [em São Paulo] já são pessoas com mais de 80 anos. O que vai sobrar são justamente os museus e os memoriais que temos”, observou.

“Para que isso nunca volte a acontecer com nenhum povo ou nação”

O curador do Memorial falou também sobre a importância de divulgar a exposição entre alunos e ensinar algumas definições pouco conhecidas pelos jovens paulistas: “É preciso falar o que é um genocídio, dar exemplos, e contar o que foi o Holocausto: foi apenas um em toda a história da humanidade, pela brutalidade, pelas etapas e a abrangência do fenômeno, pelo uso e abuso de tecnologias na indústria da morte, por todos esses motivos o Holocausto é diferente de outro tipo de genocídio”, explica.

O projeto por trás dessa exposição permanente sobre o Holocausto é muito inclusiva, extrapolando totalmente os limites da comunidade judaica paulista, e abrindo espaço para que todos os paulistas, independentemente de classe social, religião ou faixa etária, possam visitá-la. “Nós vamos tratar, dentro do possível, para que alunos das escolas paulistas com menos recursos possam vir aqui e visitar nosso memorial”, disse Faingold.

Localizado na primeira sinagoga em território paulista, o Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto foi fundado em 1912 e guarda um amplo e valioso acervo documental para valorizar a contribuição dos judeus ao desenvolvimento de São Paulo. A entrada no Memorial é gratuita, e a exposição funciona de segunda a quinta, das 9h às 17h; e de sexta-feira, das 9h às 15h. No sábado o Memorial não abre, e nos domingos é possível visitas guiadas em grupo, desde que previamente agendadas.

Sugiro uma visita a essa exposição a todos – não só aos meus leitores que sejam judeus, mas para todas as pessoas que tenham curiosidade, sensibilidade histórica e que queiram compreender esse episódio tão triste da história mundial. Eu mesmo derramei umas lágrimas em alguns momentos, vendo a exposição…

É um passeio mais sério, emocionalmente intenso, mas necessário para todos que queiram entender melhor o que foi o Holocausto, até para que, como bem está escrito num dos painéis da exposição, “isso nunca volte a acontecer contra nenhum povo ou nação”.

Veja como chegar no Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto usando o mapa abaixo, ou acesse diretamente seu site.

 

  • Um passeio mais sério e intenso - uma visita ao Memorial da Imigração Judaica e Holocausto (fotos: Rovena Rosa/Agência Brasil)

  • A cidade de São Paulo conta agora com uma exposição permanente sobre o Holocausto

  • Cobrindo um período negro da história, a exposição tem um conceito de multimídia

  • Há instalações que reproduzem o interior das instalações dos campos de concentração

  • Contando com roupas, instrumentos e filmes da época, nos faz voltar ao passado

  • Grandes painéis, fotos, vídeos e arquivos digitais nos levam a sentir mais do que só ver

  • A exposição tem lugar na rua da Graça, 160, no bairro do Bom Retiro, na capital

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Livros ameaçados de morte

Mercado editorial paulista afunda em crise graças ao Brasil

EBC

São Paulo está parando de ler. As vendas de livros em território paulista caíram 18% em volume e 19% (valor) na comparação entre o primeiro bimestre de 2018 e de 2019. No período, a queda de venda dos livros escolares foi pior: diminuição de 43% em volume e 38% em valor. Os dados são do 1º Painel das Vendas de Livros deste ano, feito pela consultora Nielsen Bookscan e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL).

Conforme o painel, em 2018, o crescimento do volume de vendas foi de 1,32% (44,3 milhões de exemplares) e no valor 4,59% (faturamento total de R$ 1,86 bilhão). O ano passado foi marcado pelo pedido de recuperação judicial de duas grandes redes varejistas (Saraiva e Melhoramentos), além do encerramento de atividades, em São Paulo, da FNAC, uma cadeia francesa de megastores especializada na venda de livros, CDs, jogos eletrônicos e aparelhos eletrônicos.

O presidente da Câmara de Livros, Vitor Tavares, disse que o setor livreiro “vive crises”, no plural. Segundo ele, a recessão e o baixo crescimento econômico visto em 2017 e 2018 afetaram o comportamento dos consumidores. “Os orçamentos pessoal e familiar diminuíram. As pessoas vão cortando consumo. O livro passa a ser considerado algo que pode esperar”.

Além da economia, Tavares assinala as mudanças no negócio, impactado com a venda na internet e pelos custos de manutenção de grandes lojas em shoppings. Ele também considera que a venda de livros em São Paulo é limitada pela falta do hábito de leitura, mas também há a questão da instabilidade econômica a que São Paulo padece, por culpa das políticas econômicas irresponsáveis que vêm de Brasília.

Hábito de leitura encolhe

A visão do presidente da Câmara do Livro é compartilhada por especialistas e já foi verificada em mais de uma edição da pesquisa Retratos da Leitura . De acordo com Zoara Falia, coordenadora do levantamento, 50% dos paulistas admitiram não ter lido um livro inteiro por vontade própria nos três meses antes da pesquisa (edição de 2016). Trinta por cento dos entrevistados declararam nunca ter comprado um livro em qualquer momento da vida.

Conforme Vitor Tavares, o impedimento da compra de livros não está no preço dos títulos. “A desculpa do preço é inerente à falta de hábito de leitura”. Em meados de 2018, a Nielsen Bookscan calculava que o preço médio do livro era de R$ 34.

De acordo com última edição da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE (2008), o gasto com livros é baixo em todas as faixas de renda familiar. Entre aqueles com rendimento de até dois salários mínimos, a despesa com “livros didáticos e revistas técnicas” foi de 0,1%, o mesmo percentual de gastos com “periódicos, livros e revistas não didáticas”.

No outro extremo, quem recebia mais de 25 salários mínimos, o dispêndio com livros didáticos e revistas técnicas também era de 0,1%. Enquanto que o gasto com periódicos, livros e revistas não didáticas chegou a 0,4%. “O preço é empecilho se tem valor absurdo. E se não tem dinheiro, a pessoa pode pegar o livro na biblioteca”, argumenta Vitor Tavares.

“As pessoas percebem a biblioteca para estudantes e para pesquisa, não um espaço cultural aberto à toda a população. Não percebem que ali encontram literatura que possa interessar”, analisa a especialista. Ela lamenta: “Às vezes, é único equipamento cultural que o município tem e deveria ser explorado, não só para acesso aos livros mas para eventos culturais”. Dado da pesquisa Retratos da Leitura indicam que menos de um terço da população (com mais de cinco anos de idade) vai às bibliotecas.

Obrigação de ler pressiona

A coordenadora da pesquisa ainda avalia que há razões dentro de casa e em sala de aula para o livro ser pouco consumido. “A escola não desperta o gosto pela leitura. A leitura acontece por forma obrigatória, isso não consegue atrair”, ressalta ao também descrever que nas famílias também “está faltando mediação, alguém que faça o contato do livro com as crianças e os jovens”.

“O hábito de leitura vem de casa ou vem da escola”, concorda Mansur Bassit, ex-secretário de Economia da Cultura, atualmente no Projeto Livro Conectado. Ele lembra que, em tempos de smartphone e internet, a atenção das pessoas está sempre em disputa. No caso dos estudantes, é preciso reforçar a preparação de docentes para essa realidade.

“É falha a formação dos nossos professores e isso reflete no mercado que não cresce. Capacitação dos professores é um dos grandes segredos para a gente melhorar a leitura, mas isso leva décadas”, pondera. Em geral, os docentes do ensino fundamental pertencem às redes municipais e os professores do ensino médio são de escolas estaduais.

A secretária executiva do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), Renata Costa, assinala que “o mercado editorial está mais aberto e voltado para as políticas públicas”. Segundo ela, os programas de aquisição de livros didáticos e paradidáticos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) “democratizam o acesso livro” e “aquecem o mercado”.

Este ano, o FNDE deve gastar mais de R$ 1,1 bilhão com a aquisição de 126 mil livros para atendimento aos professores da educação infantil e a todos os estudantes e professores dos anos iniciais do ensino fundamental, e para a reposição dos livros consumíveis para os estudantes e professores dos anos finais do ensino fundamental e ensino médio.

Outro programa governamental que viabiliza o aumento do consumo de livros é o programa Vale-Cultura, que entre 2013 e 2018, resultou no gasto de meio bilhão de reais em cultura entre trabalhadores empregados com carteira assinada. De acordo com base de dados do Ministério da Cidadania, 65% do valor (R$ 336 mil) foram gastos com aquisição de livros, jornais e revistas.

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A ameaça da pesca fantasma

ONG alerta que 10% do lixo plástico nos oceanos vêm desta prática de pesca

Reprodução/Pixabay

Quando um filé de peixe chega na mesa de um cliente no restaurante ou quando alguém compra uma lata de atum no mercado, não é difícil de imaginar que antes daquele momento toda uma cadeia de produção entrou em cena, desde o pescador artesanal ou um navio pesqueiro, até o preparo final para o consumo. O que poucos sabem é que existem muitos equipamentos de pesca abandonados no oceano ameaçando várias espécies da vida marinha. A isso se dá o nome de pesca fantasma.

“Dez por cento do lixo plástico marinho que entra nos oceanos todos os anos é equipamento de pesca perdido ou abandonado nos mares. E esses materiais, por terem sido desenhados para fazer captura, eles têm uma capacidade de capturar e gerar um sofrimento nos animais, com impacto em conservação”, explica o gerente de vida silvestre da organização não governamental (ONG) Proteção Animal Mundial, João Almeida.

As pessoas não imaginam o grau de degradação que uma lata de pescado acarreta

A ONG lançou este mês a segunda edição do relatório Fantasma sob as Ondas. O estudo mostra que a cada ano 800 mil toneladas de equipamentos ou fragmentos de equipamentos de pesca, chamados de petrechos, são perdidos ou descartados nos oceanos de todo o planeta. Essa quantidade representa 10% de todo o plástico que entra no oceano. No Brasil, estima-se que 580 quilos desse tipo de material seja perdido ou descartado no mar todos os dias.

Dentre os petrechos mais comuns estão as redes de arrasto, linhas, anzóis, linhéis, potes e gaiolas. Esses petrechos podem matar de várias formas. Os animais podem ficar feridos ou mutilados na tentativa de escaparem, presos e vulneráveis a predadores ou não conseguem se alimentar e morrem de fome.

O estudo avalia a atuação das grandes empresas pescado e as providências que tomam – ou não tomam – para evitar a morte desnecessária de peixes. A versão internacional do relatório elencou 25 empresas de pescado em cinco níveis, sendo o nível 1 representando a aplicação das melhores práticas e o nível 5 com empresas não engajadas com a solução do problema.

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Sobre o Autor

Pedro Lucas

Pedro Lucas

"Mais do que um turista, um viajante" - assim se define Pedro Lucas, morador de São Caetano, professor de artes marciais, escritor ocasional, e colunista quinzenal de turismo paulista no portal

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